Em carta, Patriota rebate acusações dos EUA sobre protecionismo

FolhaPress

Por Luciana Coelho

WASHINGTON, EUA, 21 de setembro (Folhapress) – O chanceler Antonio Patriota respondeu por escrito, na noite de ontem, à carta do embaixador Ron Kirk, titular do Comércio Exterior nos EUA, e afirmou que Brasília não abdicará do direito de usar “instrumentos legítimos” para contrabalançar o que vê como distorções causadas pelos EUA no mercado global.

O texto de Patriota -o lance mais recente de um embate comercial que ganha corpo entre Brasil e EUA- é a resposta à carta enviada por Kirk na quarta-feira na qual o embaixador chama de “protecionista” uma leva de aumentos nas tarifas de importação brasileiras e insinua que pode haver retaliação.

“O governo brasileiro não vai abdicar de seu direito de usar todos os instrumentos legítimos sob a Organização Mundial do Comércio”, escreve Patriota no texto divulgado pela diplomacia brasileira na manhã de hoje.

“O mundo tem testemunhado uma maciça expansão monetária [emissão de dinheiro] e a injeção de capital em bancos e indústrias americanas em uma escala inédita, implementada pelos EUA e outros países desenvolvidos”, argumenta.

“Como resultado, o Brasil teve de lidar com uma apreciação artificial de sua moeda e e uma enxurrada de mercadorias importadas a preços artificialmente baixos.”

Mais cedo, o ministro Guido Mantega (Fazenda), que está em Londres e participa de um seminário, dissera que as acusações americanas são “um absurdo” e voltara a criticar as medidas tomadas pelo Federal Reserve, o BC americano, que ele alega alimentarem uma “guerra cambial”.

Mantega já havia feito a crítica em uma entrevista no “Financial Times” e em declarações no início da semana, após o Fed anunciar na semana passada uma nova rodada de compras de títulos (desta vez ligados ao mercado hipotecário) para irrigar o mercado de dólares.

Na carta divulgada nesta manhã, Patriota também critica subsídios “ilegais” repassados pelo governo americano a seu setor agropecuário e afirma que eles pesam não só contra o Brasil, mas também contra países pobres da África.

Kirk havia dito que uma nova leva de aumentos de alíquotas de importação que entrará em vigor no Brasil na próxima semana e atingirá cem produtos, incluindo maquinário e eletroeletrônicos, poderia “manchar” a cooperação bilateral para facilitar o comércio de produtos industriais.

Pedira também que o governo brasileiro evitasse por em campo medidas adicionais, já em discussão, e revisasse as que foram anunciadas.

A carta enviada por Kirk diretamente a Patriota, instrumento usado com pouca frequência em debates do gênero, foi vazada por diplomatas americanos em Genebra, em um sinal de que o governo em Washington quer chamar a atenção para o assunto em plena temporada eleitoral nos EUA.

O presidente Barack Obama, que em novembro concorre à reeleição, vem prometendo em comícios que defenderá mais amplamente os interesses comerciais americanos. Em pouco mais de dois meses, os EUA abriram dois processos contra a China e um contra a Argentina na Organização Mundial do Comércio.

EUA criticam alta de tarifas de importação do Brasil

Agência Estado

O governo de Barack Obama faz ameaças ao Brasil por causa de sua política de elevação de tarifas de importação, insinua que poderia responder com barreiras contra bens brasileiros e faz um alerta: a atitude do Brasil pode afetar a relação entre os dois países.

 

Em uma carta enviada ao chanceler Antonio Patriota, o governo americano ainda diz ter sido informado de que as barreiras adotadas pelo governo Dilma Rousseff nas últimas semanas não seriam as últimas. Uma nova leva de elevação de tarifas está sendo examinada por Brasília e seu debate público está programado para ocorrer em outubro.

 

Datada de 19 de setembro, a carta é o sinal mais claro desde o início da crise econômica da insatisfação do governo americano com a atitude do Brasil. Assinada pelo representante de Comércio do governo Barack Obama, Ron Kirk, o protesto ocorre em um momento em que o presidente precisa mostrar que está defendendo os interesses de empresas e trabalhadores americanos. Em menos de dois meses, os Estados Unidos terão eleições.

 

O governo brasileiro classificou de “injustificável” e “inaceitável” o documento.

 

‘Termos fortes?

 

Diante da crise nos países ricos, Obama e outros líderes de países desenvolvidos contam cada vez mais com as exportações aos países emergentes. Mas, para isso, precisam que esses mercados mantenham suas portas abertas.

 

“Escrevo para declarar nos termos mais fortes e claros a preocupação dos EUA em relação aos aumentos de tarifa planejados e propostos no Brasil e no Mercosul”, indica Kirk já na primeira linha.

 

O motivo da carta foi a decisão do governo brasileiro de elevar o Imposto de Importação para cem produtos, medida que já havia sido precedida por outras barreiras. O Brasil insiste que tem o direito legal de elevar essas tarifas, pois as aplicadas no Brasil estão próximas de 12%, e o compromisso internacional do País na Organização Mundial do Comércio (OMC) aponta para um teto de 35%.

 

O governo americano, porém, diz que não está seguro de que as tarifas estejam de acordo com a lei. “O aumento de tarifas no Brasil vai, de forma significativa, restringir o comércio e representa claramente uma medida protecionista”, diz Kirk.

 

Para a Casa Branca, os produtos protegidos pelo Brasil atingem de forma desproporcional as exportações americanas. Além disso, teriam sido adotadas barreiras no ano passado, cujo resultado seria “uma deterioração nas condições de acesso ao mercado do Brasil”.

 

De forma diplomática, Kirk faz duas ameaças. A primeira é que a atitude do Brasil poderia minar a relação bilateral. A segunda, mais velada, é de que essa reação poderia se espalhar por outros parceiros comerciais, que “poderiam responder na mesma moeda”. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo